quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Décimo Quinto Passo

Diversas chicotadas soam no ar e uma luz se acende. Meu corpo dói , inflamado. O sangue espirra pelo chão do quintal e de repente , mergulham-me numa piscina e me dão choques elétricos. Cold turkey , my fella. Desmaio.

Acordo. Uma sala , uma cama , uma enfermeira loira peituda , à maneira clássica dos filmes pornográficos , me acorda e me cura. Mas as chicotadas persistem , agora na minha cabeça. Décimo quinto passo. São 74 degraus. Quando eu percebo , são milhares de enfermeiras , cantando pela minha recuperação. Feel me see me heal me kiss me.

Um homem de voz grave se aproxima , crianças gritam de alegria no jardim. Chicotadas e chicotadas , um ganido de dor , uma voz aguda. Totalmente descerebrado. Beat box. Theremin. Ruídos e mais ruídos. Desmaio. Morte.

...

- João , João , acorda!
- Mãe?
- Tá tudo bem contigo , meu filho? Você estava se debatendo na cama...
- Tá , tá tudo bem sim. Agora tira o disco do Radiohead do cd player , põe uma coisa pra eu dormir em paz , pode ser? Aquele novo do Sigur Rós...

domingo, 21 de dezembro de 2008

♫ ♪ ♫ ♪ ♫

Romântica, eu havia pedido pra casar contigo em silêncio. A trilha que escolhi tu não recusaria: por algum motivo, Talk Tonight falava sobre a gente e tu bem sabia.
Existem músicas que te pegam num vacilo: que tocam em determinado momento e ficam lá, talvez naquilo que você chama de alma. E, por mais que hoje eu evite ouvi-la, Talk Tonight tocou, inegavelmente, no momento certo, com a pessoa certa, na hora certa, e é uma lembrança boa.
Naquele dia, eu fiz que fiz que a gente ouvisse música na sala, no escuro. E bem lá, naquele aninho, chorei em segredo durante Talk Tonight, porque estava feliz.
Há coisas que você pode queimar, esconder, rasgar, apagar, atirar pela janela. Roupas, cartas, desenhos, fotos. Mas você não consegue fazer nada disso com uma música, e ela fica em você de tal maneira que, chega uma hora, você não sabe se o que dói de fato é a lembrança ou o que a canção fez/faz dessa lembrança.
Eu havia pedido pra casar contigo em silêncio, mas quem atirou o pedido contra o teu ouvido foi a música.

Sittin' on my own
Chewin' on a bone
A thousand million miles from home
When something hit me
Somewhere right between the eyes

E ela ainda é a responsável pelas noites em que eu penso em ti com um quê de raiva e delírio.

sábado, 20 de dezembro de 2008

além de decibéis

Era de sua única companhia suas letras. não tinha continuidade dos fatos, nem sabia ao certo o que escrever, mas tinha apenas um dever: mostrar que seu 'eu' era apenas uma linha de uma música famosa.
o que lhe mostra sorrisos, o que lhe mostra agrados, entre sorrisos e abraços é o garoto de olhos carimbados.
soava o som, soava seu rosto na escuridão. era só obra das notas que em harmonia acompanhavam um método novo de se mostrar ao mundo;
simples assim, não há mais o que fazer.
som. era escravo deste que a cada dia o consumia com seu brando leve de uma clave.
'seria tão bom eu poder gritar e não me ouvir' tentara por cinco vezes e vira que seus esforços foram em vão.
o garoto continuou escrevendo só pra poder continuar se reafirmando.
começava a compreender o silêncio e os olhos semicerraram-se, fechando.
'se eu perder tudo, me deixe os ouvidos; ainda tenho 'eu te amos' pela frente'.
o garoto ouvia o automóvel, cheio de pessoas que reclamavam de suas vidas pacatas;
ouvia o som de um instrumento afinado a mais de cem metros de seu corpo.
continuava ouvindo mais e mais, mas com mais intensidade.
ouviam dentes rangendo e pessoas se matando, catástrofes desenvolvendo-se.
'se for pra eu abrir os olhos e perceber que não vi o mundo real, que eu não consiga ver mais, pois não quero ser apenas um idiota de quinze ou mais carnavais. não quero ver que o mundo se corrói, não quero ver que o mundo se mata entre flores. deixe-me apenas ouvindo o som destas palavras suaves 'abra seus olhos e feche seus ouvidos ouça com sua mente e veja com suas mãos';

abriu os olhos e o que viu era que seu desejo fora realizado. não ia ver mais mundo se matando, mas ouvir os gritos disso.

'ah! se não fossem os meus ouvidos'

o último estampido ouvido foi de uma arma que com ajuda de seu dedo disparou um projétil varando sua cabeça.

a última linha deixada em seu texto foi 'obrigado por ter me deixado cego, mundo. se não fossem seus gritos eu nunca teria fechado os olhos'

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Som

Certa vez em uma discussão com um colega meu, discutimos qual seria pior: ser cego, surdo, mudo ou paralítico das pernas pra baixo, mas com tudo em cima! Eu cheguei à conclusão de que eu prefereria ser mudo e cego ao invés de surdo. Sério, nunca convivi o suficiente com ninguém com uma das 4, mas até simulando na minha imaginação, a audição é simplesmente indispensável..
E é indispensável por causa do som. Não é música, não é a voz de alguém em uma conversa, não é simplesmente a percepção é tudo isso junto! A vida seria um inferninho sem essas ondas.

Sugestão Musical - Beethoven, qualquer coisa do cara, por motivos óbvios. Esse era fodão.