sábado, 20 de dezembro de 2008

além de decibéis

Era de sua única companhia suas letras. não tinha continuidade dos fatos, nem sabia ao certo o que escrever, mas tinha apenas um dever: mostrar que seu 'eu' era apenas uma linha de uma música famosa.
o que lhe mostra sorrisos, o que lhe mostra agrados, entre sorrisos e abraços é o garoto de olhos carimbados.
soava o som, soava seu rosto na escuridão. era só obra das notas que em harmonia acompanhavam um método novo de se mostrar ao mundo;
simples assim, não há mais o que fazer.
som. era escravo deste que a cada dia o consumia com seu brando leve de uma clave.
'seria tão bom eu poder gritar e não me ouvir' tentara por cinco vezes e vira que seus esforços foram em vão.
o garoto continuou escrevendo só pra poder continuar se reafirmando.
começava a compreender o silêncio e os olhos semicerraram-se, fechando.
'se eu perder tudo, me deixe os ouvidos; ainda tenho 'eu te amos' pela frente'.
o garoto ouvia o automóvel, cheio de pessoas que reclamavam de suas vidas pacatas;
ouvia o som de um instrumento afinado a mais de cem metros de seu corpo.
continuava ouvindo mais e mais, mas com mais intensidade.
ouviam dentes rangendo e pessoas se matando, catástrofes desenvolvendo-se.
'se for pra eu abrir os olhos e perceber que não vi o mundo real, que eu não consiga ver mais, pois não quero ser apenas um idiota de quinze ou mais carnavais. não quero ver que o mundo se corrói, não quero ver que o mundo se mata entre flores. deixe-me apenas ouvindo o som destas palavras suaves 'abra seus olhos e feche seus ouvidos ouça com sua mente e veja com suas mãos';

abriu os olhos e o que viu era que seu desejo fora realizado. não ia ver mais mundo se matando, mas ouvir os gritos disso.

'ah! se não fossem os meus ouvidos'

o último estampido ouvido foi de uma arma que com ajuda de seu dedo disparou um projétil varando sua cabeça.

a última linha deixada em seu texto foi 'obrigado por ter me deixado cego, mundo. se não fossem seus gritos eu nunca teria fechado os olhos'

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