domingo, 21 de dezembro de 2008

♫ ♪ ♫ ♪ ♫

Romântica, eu havia pedido pra casar contigo em silêncio. A trilha que escolhi tu não recusaria: por algum motivo, Talk Tonight falava sobre a gente e tu bem sabia.
Existem músicas que te pegam num vacilo: que tocam em determinado momento e ficam lá, talvez naquilo que você chama de alma. E, por mais que hoje eu evite ouvi-la, Talk Tonight tocou, inegavelmente, no momento certo, com a pessoa certa, na hora certa, e é uma lembrança boa.
Naquele dia, eu fiz que fiz que a gente ouvisse música na sala, no escuro. E bem lá, naquele aninho, chorei em segredo durante Talk Tonight, porque estava feliz.
Há coisas que você pode queimar, esconder, rasgar, apagar, atirar pela janela. Roupas, cartas, desenhos, fotos. Mas você não consegue fazer nada disso com uma música, e ela fica em você de tal maneira que, chega uma hora, você não sabe se o que dói de fato é a lembrança ou o que a canção fez/faz dessa lembrança.
Eu havia pedido pra casar contigo em silêncio, mas quem atirou o pedido contra o teu ouvido foi a música.

Sittin' on my own
Chewin' on a bone
A thousand million miles from home
When something hit me
Somewhere right between the eyes

E ela ainda é a responsável pelas noites em que eu penso em ti com um quê de raiva e delírio.

sábado, 20 de dezembro de 2008

além de decibéis

Era de sua única companhia suas letras. não tinha continuidade dos fatos, nem sabia ao certo o que escrever, mas tinha apenas um dever: mostrar que seu 'eu' era apenas uma linha de uma música famosa.
o que lhe mostra sorrisos, o que lhe mostra agrados, entre sorrisos e abraços é o garoto de olhos carimbados.
soava o som, soava seu rosto na escuridão. era só obra das notas que em harmonia acompanhavam um método novo de se mostrar ao mundo;
simples assim, não há mais o que fazer.
som. era escravo deste que a cada dia o consumia com seu brando leve de uma clave.
'seria tão bom eu poder gritar e não me ouvir' tentara por cinco vezes e vira que seus esforços foram em vão.
o garoto continuou escrevendo só pra poder continuar se reafirmando.
começava a compreender o silêncio e os olhos semicerraram-se, fechando.
'se eu perder tudo, me deixe os ouvidos; ainda tenho 'eu te amos' pela frente'.
o garoto ouvia o automóvel, cheio de pessoas que reclamavam de suas vidas pacatas;
ouvia o som de um instrumento afinado a mais de cem metros de seu corpo.
continuava ouvindo mais e mais, mas com mais intensidade.
ouviam dentes rangendo e pessoas se matando, catástrofes desenvolvendo-se.
'se for pra eu abrir os olhos e perceber que não vi o mundo real, que eu não consiga ver mais, pois não quero ser apenas um idiota de quinze ou mais carnavais. não quero ver que o mundo se corrói, não quero ver que o mundo se mata entre flores. deixe-me apenas ouvindo o som destas palavras suaves 'abra seus olhos e feche seus ouvidos ouça com sua mente e veja com suas mãos';

abriu os olhos e o que viu era que seu desejo fora realizado. não ia ver mais mundo se matando, mas ouvir os gritos disso.

'ah! se não fossem os meus ouvidos'

o último estampido ouvido foi de uma arma que com ajuda de seu dedo disparou um projétil varando sua cabeça.

a última linha deixada em seu texto foi 'obrigado por ter me deixado cego, mundo. se não fossem seus gritos eu nunca teria fechado os olhos'